Nova Edição da revista Ludere

EDITORIAL

Apresentação

 

Nathanael Araujo

 

            Desde que os estudos de gênero aportaram no Brasil, em meados da década de 1970, viu-se emergir no campo das lutas políticas e sociais e nos espaços acadêmicos uma imensa agenda de temas e questões, responsáveis por contribuir com a consolidação de institutos de pesquisas, grupos de estudos, linhas de investigação em programas de pós-graduação e criação de revistas cientificas específicas. A quase inextrincável correlação entre reflexão teórica e prática militante se mostrou um desafio vigoroso para o avanço, lado a lado, das lutas em prol da equidade de gênero e da conquista de direito sociais e civis por parte das chamadas “minorias sexuais”.

            A formação de “pesquisadores-militantes” que atuaram e desenvolveram seus trabalhos de mestrado e doutorado nessa chave dual formou escola entre nós e dá a ver através da própria trajetória e resultado de produções acadêmicas de alguns dos docentes e discentes do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, do qual a Revista Ludere é parte constitutiva. A presente edição da revista conforma mais um conjunto de trabalhos, que visam contribuir para a área de estudos de gênero, inerentemente interdiciplinar, e apresentam instigantes desenvolvimentos para algumas das preocupações centrais desse campo de investigação.

            O volume inicia com o trabalho de Cleiton Machado Maia, intitulado Por baixo da saia da cigana – uma analise sobre gênero, incorporação, performance e emoção na tenda cigana Tzara Ramirez, onde o autor apresenta seu percurso de iniciação ao campo de estudos da religião; através dele, vislumbramos o modo como o imaginário que tanto fascinou a esse jovem pesquisador em sua tenra infância foi se transformando em indagações epistemológicas que muito tem a contribuir para a reflexão a cerca dos estudos de religião em sua relação com os estudos de gênero.

            Em Breves considerações em torno do conceito de família e amor livre, Carolina Lima da Silva apresenta uma reflexão em que processo configura palavra-guia. Suas breves considerações, ou “notas”, como também denomina, marcam exatamente a intenção da pesquisadora por desenvolver um projeto de diálogo a repeito de temas caros às Ciências Sociais, a saber, família e amor, no bojo das produções de mulheres intelectuais anarquistas. Fica evidente, ao acompanhar seus passos, o trato por reposicionar questões nem sempre novas, embora muitas das vezes relegadas a segundo plano.

            Se Maia transita espacialmente pelo município de Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro, o artigo  de Leandro Rocha dos Santos, Diário de uma travesti: experiências transfóbicas no interior de São Paulo, nos desloca, como o próprio título já revela sem situar, para Novo Horizonte, cidade do interior do estado de São Paulo de quase 40 mil habitantes, para acompanhar as trajetórias de Fernanda Bittencourt, Michelly Brum e Paolla Colucci, três travestis moradoras do município. Entre discursos objetificados e narrativas sobre o cotidiano, é possível apreender o modo como suas identidades e processos de subjetivação são estabelecidos mediante um contexto marcado não apenas por gênero e sexualidade, somando-se a região. religião, cor/raça, idade e escolaridade.

            Em diálogo fino, se apreendido por meio de leitura em conjunto com os textos de Maia e de Silva, Segurança, cidade e mulheres: da invisibilidade à visibilidade, Camila Carolina Hildebrand Galetti propõe refletir sobre as relações de gênero perante as tramas urbanas por meio do medo e da sensação de insegurança  (advindas do circular pelo espaço público) como categorias analíticas. A análise de dados de pesquisas do Mapa da Violência, da Pesquisa Nacional de Vitimização e da Pesquisa Cidade Segura, elaboradas em curto espaçamento de tempo entre um e outro, auxiliam na percepção do modo como corpos perpassam regimes de diferenciação e segmentação, determinando modos de ocupar a cidade.

            Por fim, em Gênero nas Artes, Ana Paula Alves Ribeiro, Fabiene Gama, Patricia Reinheimer, Agrippina R. Manhattan e eu apresentamos um vasto conjunto de obras e performances em que as relações de gênero e os gêneros artísticos se imbricam em possibilidades de encaixes, desencaixes e amarrações de modo a tornar o próprio termo “gênero“ esvaziado de sentidos em si para flutuar como moldura reflexiva das relações sociais, estéticas e políticas ancoradas em diferentes sujeitos dados em contextos particulares e móveis.