Sindicato e Sindicalismo Bancário.
Ana Lúcia Valença de Santa Cruz Oliveira
Este livro é resultante de uma pesquisa desenvolvida como tese de doutoramento, no programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal Fluminense, em 1996. Arriscado início de apresentação, diriam muitos, acostumados com trabalhos acadêmicos cujos temas estão distantes do interesse de um público maior, e cuja linguagem mais parece um código decifrável apenas por iniciados.
Obviamente não é esse o exemplo do trabalho de Ana Lúcia, que se volta para um dos objetos mais clássicos da história e das ciências sociais no Brasil o sindicalismo corporativo - , sob uma perspectiva em muitos pontos inovadora e frutífera. Em primeiro lugar, trata-se de um estudo de caso do sindicato dos bancários do Rio de Janeiro, categoria profissional e cidade do país que qualificam, por si só, a relevância da escolha. A autora, contudo, tem outras razões, mais próximas do tema, para fundamentar o recorte realizado, pois ela mesma é uma ex-bancária e ex-sindicalista envolvida nessa história. Mas a observação se justifica, não apenas por uma questão de trajetória pessoal, mas principalmente por iluminar uma perspectiva de análise da vida sindical que, sem minimizar a dimensão mais estrutural desta organização do mundo do trabalho, enfatiza a experiência concreta daqueles que nela apostaram suas forças e esperanças.
Assim, o grande objetivo do livro é responder a uma questão ao mesmo tempo simples e sofisticada. Que sindicato e que sindicalismo é esse, que se construiu desde os anos 30 e entrou em colapso nos anos 60? Para tanto, a autora investiga as origens desse sindicato corporativo; seleciona algumas de suas lutas grevistas mais importantes; e dedica-se a <olhar esta máquina por dentro>: como se organizava administrativamente? qual é e de onde vêm os recursos que a mantém? em que se aplica essa arrecadação? como se relaciona com os bancários e com os banqueiros? e quais são suas vinculações com o famoso Instituto de Aposentadorias e Pensões dos Bancários, o IAPB?
Esta é fundamentalmente a sua grande contribuição ao campo dos estudos sobre o movimento sindical no Brasil, pois tal nível de análise praticamente não existe na maioria do que até hoje se produziu, e que não é pouco.
Ao não sucumbir a dicotomias comuns - como a do sindicato antes e depois de 1930, submisso ou revolucionário -, e ao demonstrar como os bancários se apropriam das leis trabalhistas, marcando sua presença no cenário do sindicalismo brasileiro, Ana Lúcia acompanha a construção de uma identidade profissional que vive em permanente transformação. Por outro lado, ao fazer uma espécie de <etnografia econômica> da vida de um sindicato, esclarece como uma categoria fez uso do imposto sindical e qual foi o seu peso ante outras fontes de arrecadação. Vê-se então, claramente, através de tabelas e gráficos que, durante os vinte anos analisados (1943-1964), decrescia a importância do imposto compulsório frente às mensalidades voluntárias, o que faz pensar sobre a legitimidade de uma organização. Do mesmo modo, seus dados evidenciam que independentemente da coloração da direção sindical, o grande destino do que se recolhia era o assistencialismo, respondendo a demanda dos que efetivamente contribuíam para o sindicato.
Com seu livro a autora nos faz <entrar> nesse sindicato, sem classificações prévias e rígidas. É por isso que podemos acompanhar a construção de suas tradições tanto grevistas quanto assistencialistas - , e verificar que a vida de um sindicato é assunto complexo, envolvendo de um lado, questões estruturais relativas ao corporativismo e de outro, possibilidades abertas pela imaginação e vontade política dos homens que nele atuam.
ÂNGELA DE CASTRO GOMES
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